Setembro é marcado pelo Setembro Amarelo, um movimento de conscientização sobre a prevenção ao suicídio e a importância de falar sobre saúde mental. A campanha nos convida a olhar com mais atenção para o sofrimento emocional, combater o silêncio e incentivar a busca por ajuda.
Mas existe um assunto que, muitas vezes, fica de fora dessa conversa: o dinheiro.
Falar sobre dinheiro pode despertar ansiedade, medo, vergonha, culpa e até sensação de fracasso. Para muitas pessoas, abrir a fatura do cartão, conferir o saldo da conta ou pensar nas contas que precisam ser pagas já é suficiente para gerar preocupação.
E isso não acontece por acaso.
Nossa relação com o dinheiro está diretamente ligada à nossa rotina, aos nossos planos, à nossa sensação de segurança e às decisões que tomamos todos os dias. Por isso, quando as finanças estão desorganizadas, os impactos podem ultrapassar o bolso e chegar também ao nosso bem-estar.
Por que falar sobre dinheiro incomoda tanto?
Dinheiro ainda é um assunto cercado por muitos tabus.
Nem sempre aprendemos dentro de casa ou na escola como organizar um orçamento, lidar com dívidas, planejar objetivos ou tomar decisões financeiras. Em muitos casos, aprendemos sobre dinheiro apenas quando começamos a ganhar e gastar o nosso próprio.
Além disso, falar sobre dificuldades financeiras pode gerar vergonha.
Uma pessoa endividada pode evitar conversar sobre o assunto com familiares, amigos ou até mesmo com um profissional por medo de ser julgada. Em vez de encarar a situação, pode começar a adiar decisões, ignorar contas, evitar olhar o extrato bancário ou continuar utilizando o crédito para cobrir despesas que não cabem mais no orçamento.
O problema é que evitar o dinheiro não faz o problema desaparecer.
Na maioria das vezes, ele continua crescendo enquanto a pessoa passa a carregar também a preocupação de não saber como resolver a situação.
O endividamento faz parte da realidade de milhões de brasileiros
O cenário brasileiro ajuda a entender por que esse assunto merece atenção.
Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em agosto de 2026. O levantamento considera dívidas relacionadas a cartão de crédito, cheque especial, carnês, crédito consignado, empréstimos e financiamentos, entre outras modalidades.
Mas o número mais importante talvez esteja em outro lugar.
Uma pesquisa realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, em agosto de 2026, mostrou que 89% dos brasileiros entrevistados afirmam que problemas financeiros já afetaram sua saúde mental.
Entre os impactos relatados, 71% disseram que os problemas financeiros prejudicaram o sono, enquanto outros apontaram consequências no humor, na autoestima e na estabilidade emocional. (Serasa)
Ou seja, estamos falando de um problema que vai muito além de simplesmente “ter contas para pagar”.
Como a desorganização financeira pode afetar a mente?
Imagine alguém que todos os meses recebe o salário e, antes mesmo de o dinheiro entrar, já sabe que praticamente toda a renda está comprometida.
Cartão de crédito, empréstimos, parcelas, contas atrasadas e despesas do dia a dia se acumulam. A pessoa começa a fazer contas mentalmente o tempo inteiro:
“Será que vai dar?”
“Como vou pagar essa conta?”
“Será que o cartão vai passar?”
“De onde vou tirar dinheiro para cobrir isso?”
Esse estado constante de preocupação pode aumentar o estresse e contribuir para sintomas de ansiedade, alterações no sono, irritabilidade e dificuldade de concentração.
Em situações mais graves, o sofrimento emocional pode se intensificar e estar associado a quadros de depressão ou outros problemas de saúde mental.
É importante, porém, fazer uma ressalva: problemas financeiros não são, sozinhos, causa de transtornos mentais. A saúde mental é influenciada por diversos fatores e deve ser avaliada de forma individual por profissionais especializados.
O que podemos afirmar é que dificuldades financeiras podem funcionar como uma importante fonte de estresse e sofrimento emocional.
O problema pode virar um ciclo
Existe ainda outro ponto importante: a relação entre dinheiro e saúde mental funciona nos dois sentidos.
As dificuldades financeiras podem aumentar a ansiedade e o estresse. Ao mesmo tempo, quando estamos emocionalmente abalados, nossa capacidade de tomar boas decisões também pode ser prejudicada.
Em momentos de ansiedade, por exemplo, algumas pessoas podem buscar o consumo como uma forma de aliviar emoções desagradáveis. Outras podem evitar completamente olhar para as próprias finanças.
E assim surge um ciclo:
desorganização financeira → preocupação → estresse → decisões impulsivas ou evitativas → mais desorganização financeira.
Romper esse ciclo exige mais do que simplesmente dizer para a pessoa “gastar menos”.
É necessário entender o comportamento, os hábitos e a relação que ela construiu com o dinheiro.
Onde entra a educação financeira?
É justamente nesse ponto que a educação financeira pode contribuir.
Educação financeira não significa simplesmente aprender a investir ou descobrir qual é a melhor aplicação financeira.
Antes disso, significa aprender a compreender o próprio dinheiro.
Quanto entra?
Quanto sai?
Para onde o dinheiro está indo?
Quais são as prioridades?
Quais dívidas precisam ser resolvidas?
O que é realmente importante para a minha vida?
Quais decisões posso tomar hoje para melhorar minha situação no futuro?
Ter essas respostas não resolve automaticamente todos os problemas financeiros, mas pode aumentar a sensação de controle sobre a própria vida financeira.
E essa sensação de controle é muito importante.
Uma pessoa pode estar endividada e, ainda assim, começar a construir um plano para sair das dívidas. Outra pode até ter uma renda maior, mas viver constantemente preocupada porque não sabe para onde o dinheiro está indo.
Por isso, a organização financeira não deve ser confundida com riqueza.
Ter dinheiro ajuda, mas saber lidar com ele também importa.
Cuidar do dinheiro também pode ser uma forma de autocuidado
Cuidar das finanças não significa abrir mão de tudo, deixar de aproveitar a vida ou transformar cada gasto em uma planilha.
Significa tomar decisões financeiras mais conscientes e alinhadas à realidade.
Pode começar a anotar os gastos.
Pode ser organizar as contas atrasadas.
Pode ser conversar com a família sobre dinheiro.
Pode ser reduzir o uso do crédito.
Pode ser construir uma reserva financeira.
Pode simplesmente parar de evitar olhar para a própria situação.
O primeiro passo não precisa ser perfeito. Precisa ser possível.
E, quando a situação financeira estiver causando sofrimento emocional intenso, buscar ajuda profissional também faz parte do cuidado.
Assim como não devemos tratar uma doença física apenas com conselhos encontrados na internet, problemas de saúde mental também precisam de atenção especializada quando necessário.
Setembro Amarelo também é sobre falar
O Setembro Amarelo nos lembra da importância de conversar, acolher e buscar ajuda.
E falar sobre dinheiro também pode ser uma forma de quebrar um silêncio.
Muitas pessoas passam anos carregando dívidas, preocupações e inseguranças financeiras sem contar para ninguém. Sentem vergonha, medo de julgamento ou acreditam que deveriam conseguir resolver tudo sozinhas.
Mas pedir ajuda não é sinal de fracasso.
É sinal de que existe uma dificuldade que precisa ser enfrentada.
A educação financeira pode ajudar a transformar uma relação de medo e desorganização em uma relação de maior consciência e planejamento. Ela não substitui o acompanhamento de profissionais de saúde mental, mas pode fazer parte de uma vida mais equilibrada.
Neste Setembro Amarelo, talvez valha a pena fazer uma pergunta que vai além do seu saldo bancário:
Como está a sua relação com o dinheiro?
Ele tem sido uma ferramenta para construir a vida que você deseja ou uma fonte constante de preocupação?
Se a resposta não for boa, não é preciso resolver tudo de uma vez.
Comece olhando para a realidade.
Organize.
Planeje.
Converse.
Busque ajuda.
Cuidar das finanças não é sobre ter uma vida perfeita. É sobre construir, pouco a pouco, uma relação mais consciente com o dinheiro e com as escolhas que fazemos todos os dias.
E cuidar de si também passa por isso.

